As pirâmides da Internet


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Artigo de opinião publicado na edição n.º 782 do jornal “O Portomosense” (Janeiro, 2015)

Com a persistência dos baixos salários e do aumento do custo de vida, a maioria dos portugueses depara-se com dificuldades económicas. Assim, quando lhes apresentam algo aparentemente legal e que produz rendimentos acima da média, a emoção dá lugar à razão e ergue-se uma espécie de pirâmide alicerçada no desespero e ignorância, onde o rendimento é garantido pela entrada de novas pessoas no referido esquema.

Há alguns meses atrás fiquei a saber que era moda alguns particulares venderem café. Um amigo meu avisou-me logo: “Epá, isso é mais um esquema pirâmide! Daqueles que te prometem rendimentos astronómicos da noite para o dia!”.

Resolvi então investigar um pouco na Internet acerca do dito café que tinha propriedades medicinais e que resolvia sozinho uma panóplia de problemas de saúde, incluindo Alzheimer. A curiosidade crescia assim que lia mais sobre o produto. E nem o simples facto de estar a ser vendido por particulares ou de ter por base um sistema de comissões, me levantava suspeitas. Mas como nem tudo é ouro, o meu entusiasmo foi rapidamente interrompido após ver uma reportagem realizada nos EUA, em que mostrava pessoas a serem hospitalizadas depois de ingerirem o referido café; bem como ao ver que uma das principais vendedoras não conhecia as contra-indicações do principal componente do dito cujo: um tal de Ganoderma Lucidum. Mas será que o café tem na realidade esse componente? Será que é normal que os promotores originais do sistema tenham sido condenados por burlas e coisas do género noutros esquemas parecidos?

Entretanto descobri mais um sistema engraçado. Desta vez o produto alvo das vendas é o próprio produto. Confuso? Talvez não, vamos ver.

Depois da venda de café ou de produtos de beleza do outro mundo, virou moda ser Internet Marketer.

Mas como tudo isto se processa? Bem, para começar a pessoa é convidada a investir $19.95 + $25 (+/- 36.63€) p/mês. Sim, o produto mais barato para entrar no esquema é um blogue em WordPress e um subdomínio para angariar mais pessoas para a pirâmide.

Agora pergunta-se: então mas o WordPress não é uma plataforma grátis? E não existe alojamento nacional de blogues a partir de 10€ por ano? E um domínio omeunome.com não custa só 7€ por ano?

São perguntas legítimas, mas deve compreender que os $19.95 (+/- 16.26€) são para a empresa americana que promove o esquema e os $25 (+/- 20.37€) mensais para a pessoa que o recrutou.

Confuso? Vamos a um exemplo prático: 1.º X recruta Y. Logo, X recebe os $25 que Y paga mensalmente; 2.º Y convence mais pessoas a entrarem no sistema; 3.º Y recebe os $25 mensais da primeira pessoa que angariar, mas X (que recrutou Y) recebe os $25 mensais da segunda pessoa que Y recrutar. E por aí fora.

Em suma, a Internet é uma ferramenta fantástica a diversos níveis, mas a filtragem dos conteúdos fica a cargo de quem a utiliza. O ditado “a cavalo dado não se olha o dente” não se aplica e é perigoso, pois por algo estar na Internet não é razão suficiente para ser tido em consideração.